A identidade dos sujeitos da EJA na diversidade: A imagem refletida no outro ou o outro refletido em você?

Alba Bezerra[1]

 

Muito se fala sobre os sujeitos da EJA. Mas quem são esses sujeitos? Que imagens esses sujeitos têm de si? Como eles têm sido vistos? Que imagem povoa o nosso imaginário a respeito deles? Como reconhecer e valorizar a sua identidade na diversidade? Como oferecer apoio para que cada sujeito tenha uma autoimagem positiva de si e se reconheça como capaz?

 

A imagem que o homem tem e faz de si e dos outros é um fenômeno histórico, social, cultural, político e porque não dizer, subjetivo, marcada essencialmente pela forma como o homem produz a sua existência, impossibilitando-o a agir conforme as suas possibilidades e receber de acordo com a sua necessidade. Nesse contexto, a tríade identidade X igualdade X diversidade, tem uma forte interseção com o conceito de “liberdade”, gerando as desigualdades tão presentes na nossa sociedade capitalista.

 

Os sujeitos da EJA fazem suas escolhas existenciais sob as tensões da necessidade de sobrevivência. Por essa razão, estas não representam uma condição de “livre escolha.” Entre o ideal, o real e o possível, há uma distância que os afeta e sucumbe os seus desejos.

 

Sem o olhar crítico para interrogar a realidade a qual estão submetidos para que estabeleçam conexões com a historicidade e compreendam “por que a história está assim”, os homens ficam submetidos à condição de oprimidos e silenciados para atuarem como “massa de manobra.” Desta forma, para pensar neles como sujeitos da EJA, é necessário pensar também na categoria trabalho, aliado a diversidade (gênero, raça, etnia, diversidade sexual, dentre outras).

 

Imersos numa realidade perversa que os coloca como sujeitos “fracassados” e/ou evadidos da escola como se essa fosse uma opção sem implicação de outros precedentes, as políticas públicas de países em que impera a mais valia (como o Brasil) e a sociedade trazem uma visão que causam estereótipos de que eles são sujeitos de direito e da falta. No entanto, nem sempre se tem o cuidado de contar a história para os sujeitos da EJA com palavras verdadeiras; contam-lhes apenas uma faceta desta trama.

 

Assim, os nossos jovens, adultos, idosos, negros, brancos, indígenas e toda a diversidade compositiva das misturas étnicas; homens, mulheres, trabalhadores empregados ou desempregados, livres ou em privação de liberdade, pessoas com direitos educacionais especiais… São postos na condição daqueles que não atingiram a escolaridade na idade regular porque não quiseram ou não tiveram força de vontade suficiente para estudar. É assim que a grande maioria deles se veem e são vistos.  Mas reconhecem que estudar é um direito de todos e que devem ter a oportunidade do acesso ao conhecimento acadêmico. No entanto, de que conhecimentos estamos falando? A serviço de quem está esse conhecimento? Para quem? Quais são os critérios dessa escolha desse conteúdo? Qual a relação deste conhecimento com a vida desses sujeitos? Nas salas de aula, valorizamos o conhecimento que cada um tem?

A expectativa que a maioria deles têm de aprender a escrever o nome próprio, ler a palavra de Deus ou aprender a ler e escrever para
ensinar aos filhos e netos, reforçadas com atividades sem sentido e significado social, reitera a manutenção dessa história.  O “modelo” de escola presente na sociedade para os sujeitos da EJA precisa ser repensado.

A EJA deve ter um compromisso político e social com esses sujeitos que estão para além desta concepção de escolarização. A EJA deve ser vista como uma modalidade de ensino com marcas próprias. Deve reconhecer, acolher e valorizar a história de vida de cada um desses sujeitos, validando os saberes que já possuem e oferecendo-lhes condições para que tenham sempre novas perspectivas de vida e possam construir outras histórias.

 

É necessário e urgente que os educadores da EJA tenham uma formação específica para que possam pensar boas estratégias de ensino e de aprendizagem, assim como, sejam implicados com a sua autoformação. Sem isso, a falta ou o aligeiramento da compreensão da história e de quem são os sujeitos, compromete a qualidade da mediação nos espaços educativos que atuamos com os nossos jovens e adultos.

 

Precisamos, sim, de uma política pública para a EJA, centrada nesses sujeitos com a expressão de toda a sua identidade na diversidade, mas é necessário empenho efetivo para fazê-la sair do papel. Garantir espaços de relações intergeracionais de diálogo entre saberes, de compreensão e de reconhecimento da experiência de vida, tensionada pelas culturas de jovens, adultos e idosos dá a possibilidade de olhar para as nossas semelhanças e diferenças e aprender sempre com elas, como traz Guimarães Rosa, no trecho Grande Sertão: Veredas:

              “O senhor… mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando.

Afinam ou desafinam. Verdade maior.  É o que a vida me ensinou.”

 

O reconhecimento de maciça presença de grupos etários integrantes da categoria histórica jovens, adultos e idosos nos processos educacionais, com toda a diversidade presente, precisa ser o foco na prática educativa.

 

Toda essa diversidade necessita ser contemplada nas nossas propostas de EJA. Trazemos um velho discurso da inclusão, mas no nosso inconsciente coletivo referimo-nos apenas aos sujeitos com direitos educativos especiais. Entretanto, quem não quer se sentir incluído? Queremos uma escola para todos e não sabemos incluir a todos. Esse tem sido o nosso desafio. Daí a importância de termos clareza dos critérios e seleção dos conteúdos que levamos para cada sala de aula e da escuta atenta para outros conteúdos que aparecem em cada diálogo.

 

O que a juventude cada vez mais presente na EJA pode aprender com os adultos e os idosos? O mesmo questionamento vale para os mais velhos. Como um contribui para a autoimagem do outro?

De que forma podem ter mais tolerância e respeito à diversidade cultural, etária, de gênero, orientação sexual, étnica, racial, dentre outras? De que forma esses conhecimentos, crenças e valores contribuem para uma sociedade mais humana, digna e menos desigual?

 

Encarar, na EJA, a diversidade exige (re)educar o nosso olhar e a forma como nos relacionamos com as pessoas e com o mundo. Ter consciência de quem somos e como o outro nos reflete, contribuindo para a construção da imagem que temos de nós mesmos e do outro, reafirma a crença de que o nosso eu e os outros se fazem na ação e na reflexão, na práxis, como já nos disse sabiamente Paulo Freire. Portanto, “Testemunhar a abertura aos outros, a disponibilidade curiosa à vida, a seus desafios, são saberes necessários à prática educativa. Viver a abertura respeitosa aos outros e, de vez em quando, de acordo com o momento, tomar a própria prática de abertura ao outro como objeto de reflexão crítica deveria fazer parte da aventura docente. A razão ética da abertura, seu fundamento político, sua referência pedagógica, a boniteza que há nela como viabilidade do diálogo… O sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com o seu gesto a relação dialógica em que se confirma como inquietação e curiosidade, como inconclusão em permanente movimento na História.”

 

Que estejamos sempre receptivos as novas aberturas de diálogos. Diálogos que nos fortalece, aproxima, mas também nos distancia, quando necessário, para olhar a realidade posta de outros ângulos e encontrando a beleza na diversidade para fortalecer a nossa identidade. Afinal, só sabemos que somos único porque existe o diverso![2]


[2] A inspiração para escrita desse texto se deu na minha atuação com a Educação de Jovens e Adultos em diferentes contextos, especialmente com esses sujeitos que estão em processo de alfabetização no Brasil e em Moçambique.

Alfabetizar em sociedades não letradas e produtora de cultura, como a oportunidade que tive neste último país citado foi um convite para colocar-me em reflexão permanente sobre o respeito a tríade identidade X igualdade X diversidade.

 

 


[1] A autora é pedagoga e especialista em EJA, consultora associada e Gerente de Projetos da ESSE Consultoria e membro da Equipe Diretiva da RedSOLARE Brasil.

bezerra.alba@gmail.com

 

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