Como é ingressar em um grupo já constituído?

Maria Genilde Alecrim Machado[1]

 

 

Eu não sou você

Você não é eu

Eu não sou você.

Você não é eu.

Mas sei muito de mim

Vivendo com você.

E você, sabe muito de você vivendo comigo?

Eu não sou você

Você não é eu.

Mas encontrei comigo e me vi

Enquanto olhava pra você

Na sua, minha, insegurança

Na sua, minha, desconfiança

Na sua, minha, competição

Na sua, minha, birra infantil

Na sua, minha, omissão

Na sua, minha, firmeza

Na sua, minha, impaciência

Na sua, minha, prepotência

Na sua, minha, fragilidade doce

Na sua, minha, mudez aterrorizada

E você se encontrou e se viu, enquanto olhava pra mim?

Eu não sou você

Você não é eu.

Mas foi vivendo a solidão

Que conversei com você.

E você, conversou comigo na sua solidão

Ou fugiu dela, de mim e de você?

Eu não sou você

Você não é eu.

Mas sou mais eu, quando consigo lhe ver

Porque você me reflete

No que ainda sou

No que já sou e

No que quero vir a ser…

Eu não sou você

Você não é eu.

Mas somos um grupo,

enquanto  somos capazes de, diferenciadamente,

Eu ser eu, vivendo com você e

Você ser mais você, vivendo comigo.

(O que é um grupo/Madalena Freire)

 

 

Inicio este texto com o poema da Madalena Freire porque acredito e defendo que um grupo se constrói ao longo da experiência vivida e, em um grupo existem pessoas distintas, singulares e únicas convivendo com estas diferenças e expressando suas potencialidades e fragilidades.

 

Para Pichon-Rivière[2] fala-se em grupo quando um conjunto de pessoas movidas por necessidades semelhantes se reúnem em torno de uma tarefa específica, deixando de ser um amontoado de indivíduos para cada um assumir-se como participante de um grupo com objetivo em comum.

 

Corroborando com o autor, ingressar na equipe de consultores da ESSE Consultoria é uma oportunidade única de conviver tanto com quem já convivi profissional e pessoalmente quanto com pessoas que ainda preciso aprender a conhecer, a lidar, valorizar e reconhecer seus limites e possibilidades em prol de um objetivo comum, um elo que nos une: desenvolver um trabalho educativo de qualidade para as pessoas de Nacala, Tetê, Benguela, Luanda, da África, do Brasil, da Bahia, de onde quer que estejamos nós.

 

A sensação de pertencimento a este grupo já tomava conta do meu ser antes mesmo de ser formalmente uma consultora associada. Os princípios, crenças e ideais da instituição, expressos pela sua equipe diretiva, já fazem parte dos meus desde sempre. A metáfora da árvore como forma de transformação e reconstrução da realidade através do seu trabalho move tanto a ESSE como a minha vida, além do desejo de fazer a diferença no trabalho em prol de uma sociedade menos desigual através da educação.

 

Comungo com Paulo Freire quando diz que “ a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”[3] , e esta é a ‘utopia” ESSE de Ser e fazer acontecer! Superar desafios, romper fronteiras e deixar marcas positivas por onde passa é o que faz esta utopia se transformar em realidade através da ação educativa intencional.

 

O desafio, contudo, de ingressar no grupo já constituído é grande. Não ter vivido a experiência in loco, no campo de atuação, diminui as possibilidades de diálogos mais profundos e consistentes com as colegas. No entanto, existe também o lado proveitoso dessa condição “externa”, “descontaminada”: analisar o contexto de fora, como um terceiro olho e tanto fazer perguntas como indagações que permitam o grupo que viveu intensamente a experiência a ir mais além e analisar criticamente sua própria prática.

 

Acreditando na vertente de que existem sempre vários pontos de vista para a resolução de uma situação problema, busquei escutar mais e me posicionar menos, contudo, não deixei de expressar as minhas impressões acerca do que estava sendo exposto através da experiência profissional do grupo África, o qual faço parte desde então.

 

As indagações de como é viver em um país distinto, quais são as marcas fortes da cultura local, como cada uma se vira nas questões práticas do dia a dia foram presentes nos diálogos informais com as colegas no intuito de ingressar nessa África de todos nós antes mesmo de estar lá fisicamente.

 

Ressalto ainda que aceitar o desafio de escrever o primeiro diário de bordo desse grupo é uma marca pessoal: não ter medo do novo, do desafio; estar disposto a aprender com a situação, a compartilhar dúvidas e verdades provisórias, dar e receber comentários de retorno que ajudem a dar saltos qualitativos – são aspectos que considero fundamentais para a inserção em qualquer grupo, quer seja iniciado e vivido ao mesmo tempo ou em tempos diversos, pois cada ser é, de fato, diferenciado. Mesmo que o tempo cronológico seja igual, o ritmo e o modo como cada um age e reage é o que marca a diferença e individualidade de cada membro do grupo.

 

A partir dessa produção, iniciei um diálogo com as demais consultoras da instituição.

 

O trecho de Humberto Maturana, apresentado por Marilia  no primeiro dia da Semana de Aprendizagem Organizacional

          “ O mundo não é anterior à nossa experiência.

 A nossa trajetória de vida nos faz construir nosso conhecimento do mundo. (…)

O mundo também constrói seu próprio conhecimento a nosso respeito.”

 

traduz esta ideia de como a gente se insere no mundo e, no caso desse texto, o mundo é o grupo no qual estamos vivendo, o  de consultores da ESSE. E que imagem este grupo/mundo tem de quem ingressa nele já consolidado?

 

Deixo esta indagação para os interlocutores e espero receber comentários de retorno que sejam boas ferramentas para que eu, também, dê saltos qualitativos na minha aprendizagem.

 

Por fim, penso que o trabalho em grupo deve funcionar como em um formigueiro: cada um fazendo a sua parte. Nessa perspectiva, cada um compartilha saberes, crenças, dúvidas, incertezas, buscando a cada dia  investir mais na sua formação pessoal e profissional, porque “o caminho se faz na caminhada”. Desse modo, os resultados do grupo serão  mais significativos. Espero que assim seja a minha atuação e participação na ESSE, tanto no grupo do Acreditar Moçambique como em qualquer outro projeto que esteja ainda “ além do horizonte”.

 


[1] Pedagoga; Consultora da Esse Consultoria e conhecida como Jane Machado.

[2] Retirado do site  www.famema.br/capacitacao/oqueumgrupo.pdf

[3] www.paulofreire.org

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