O Ateliê como Metáfora da Criatividade

*Alba Bezerra

“Criar é dar foram ao caos e para criar é preciso poder de fazer escolhas.

 A escolha é o limite que cria a forma. Só aprendemos a escolher

o próprio caminho, quando temos liberdade de opção.

 O ateliê é compreendido assim, como o lugar das escolhas.”

                                                                                Anna Marie Holm

 

             

As crianças são realmente fantásticas! Basta lhe darmos oportunidades para revelar o quanto são competentes e criativas, expressando através de distintas linguagens o potencial de um ser curioso por natureza, que não se intimida diante do inusitado.

 

Chega a ser um movimento antagônico em uma cultura que legitima a padronização, a reprodução, o consumo de ideias pré-fabricadas, que valoriza quase sempre a linguagem a oral.

 

Sabemos que a oralidade em nossa cultura é algo muito forte. Temos arraigado nas nossas matrizes de aprendizagens que a fala é uma das principais premissas para possibilitar o acesso ao conhecimento. No entanto, ela é uma das infinitas formas de expressão.

 

Nesse sentido, as ideias de Loris Malaguzzi em diálogo com Gardner têm nos revelado o quanto as aprendizagens são multissensoriais. Aprendemos estabelecendo conexões. Aprendemos experimentando distintas sensações. Aprendemos com o não dito. Aprendemos com o vivido.

 

Imbuídos deste pensamento, compreendemos o ambiente como um terceiro educador. Espaço este marcado de intencionalidade pedagógica, com uma lógica e princípio de funcionamento, que deve permitir escolhas de forma autônoma, experimentações, linguagens simbólicas, a expressão da criatividade sem que lhe demos ordens e nem que lhe digam o que fazer. O ambiente deve, especialmente, garantir o direito de cada criança a ser criança e de ser ouvida!

 

Ouvida na sua capacidade infinita para inventar, sentir, agir e fazer descobertas sobre o mundo em que vive. Basta que encontre um terreno fértil para isso. É com este pensamento que instauramos a prática dos ateliês na Escola Colmeia, inspirados pelo pensamento de Alfredo Hoyuelos:

 

“O ateliê nasce para reconhecer o direito da criança à ação, ao fazer, ao construir, a transitar por experiências de aprendizagem concretas. Só assim, a criança pode recuperar o sentido, o sentimento de um enriquecimento de caráter pessoal no plano intelectual, afetivo, relacional. Malaguzzi neste aspecto recupera as teses piagetianas que afirmam que o pensamento não nasce do nada, senão que se constrói através da ação.”

 

Para nós, professores, aprender que a consigna é o silêncio e a intervenção é o ambiente organizado, foi uma construção progressiva alimentada através de inúmeras discussões com o apoio nos estudos, observações em sala de aula, filmagens, consultoria interna com Alfredo Hoyuelos, seminários e interlocução com educadores da Reggio Emilia e os outros parceiros da REDSOLARE de outros países, retroalimentando a nossa ação e reflexão.

 

Cada vez mais estamos refinando a nossa compreensão acerca da Pedagogia da Escuta. Aprender a escutar leva tempo! Um tempo que não segue o compasso cronológico do relógio, mas sim, um tempo sem tempo, que escuta e respeita os ritmos de cada sujeito envolvido. Um tempo kairos, um tempo qualitativo, sonhador.

 

Viver todo este processo e montar um centro de coleta e distribuição de materiais, a fim de começarmos instaurar os ateliês como uma prática efetiva na escola, foram ações que mexeram também com a cultura da nossa comunidade de aprendizagem em relação ao consumo, reaproveitamento de materiais e a preservação do meio ambiente. Nossa, como descartávamos o que poderia ser reutilizado! Quantas possibilidades!

 

Diante deste acervo, organizar esteticamente o ateliê de modo que o ambiente provocasse o insólito, a admiração, a emoção e convocasse o olhar e a ação das crianças para as descobertas foi de uma riqueza e singularidade para os envolvidos. Neste momento, também nos colocamos como protagonistas dialogando com Malaguzzi, aproximando a teoria da prática, articulando os princípios da estética e da ética. Logo algumas questões começaram a povoar a nossa cabeça: Como apresentar esteticamente este ambiente para as crianças? De que estética estamos falando? Que materiais privilegiar? Será que elas ficarão voltadas para a manipulação e exploração física dos materiais ou se envolverão em processos criativos? O que queremos investigar? As escutas e as possíveis interpretações que faremos apoiarão as necessidades das crianças para as nossas  próximas sessões de documentações? Qual o papel de cada adulto na documentação?

 

A chegada do pequeno grupo de crianças de 2 anos no ateliê e a reação de cada uma delas diante do inesperado ressaltou o brilho no olhar, percorrendo rapidamente o espaço e a disponibilidade de materiais, no qual oferecia riquezas de possibilidades combinatórias e criativas entre as linguagens e as inteligências não verbais.

 

De forma discreta, foram interagindo… Contudo, o colorido das tintas e os mais distintos suportes para pintar foram uma convocação para a exploração dos sentidos, transformando o próprio corpo em objeto, que aos poucos iam compondo-se de matizes, texturas, sobreposições de cores, num misto de liberdade e possibilidades… De prazer, muitos prazeres!

 

Logo, pintar o seu corpo, o do colega, o chão, permitindo estabelecer significados múltiplos com os elementos expressivos nos deixou inquietas novamente: Como compreender o que cada criança está buscando? O que estão nos dizendo? Por que priorizaram as tintas? Como lidamos com o nosso sentimento diante da melança delas no seu processo exploratório? Que outros sentimentos esta documentação nos remete?

 

As interpretações, como Malaguzzi coloca, apresentam-nos uma possível narração do mundo imaginário das crianças, mas esta não está fechadaem si. Estáaberta a novos questionamentos, críticas, observações. Estas documentações têm a virtude de estar sempre suscetíveis a  perguntas pertinentes para duvidar das interpretações realizadas, com o intuito de tentar compreender a complexidade do pensamento infantil.

 

Nas sessões no ateliê com as crianças de 3 anos, o inesperado acontece nos remetendo para o exercício de uma escuta ainda mais atenta e sensível… As crianças reagiram completamente diferente do grupo anterior… Transformam o ambiente estruturado num caos necessário… Transgressor de um significado ainda ausente, promovendo um encontro com o absurdo, com o imprevisto, uma combinação inesperada e enigmática, uma reação contra a monotonia, alterando as combinações habituais, rompendo esquemas normalizantes. Nos entreolhamos… Que interpretações cada um dos adultos estamos fazendo? Qual a ordem naquela desordem as crianças estão construindo e/ou experimentando? Quais as histórias de cada uma e quais são as suas características? Qual o critério de escolha de cada material e porque são despejados no mesmo local?

 

Uma irremediável necessidade de identificar sinergias interativas colocam em atividade às ideias e as ações como lugar de busca de significados. Como uma inelutável necessidade de passar das ideias à ação.

 

O ateliê, como diz Malaguzzi, tem esta possibilidade: “convida a crianças e adultos a experimentar, a provar, a pesquisar, a brincar com as loucuras.”

No encontro com os educadores envolvidos nesta documentação, revelamos os nossos sentimentos e confrontamos olhares diante do vivido. Planejamos as sessões seguintes com as mesmas crianças participantes e decidimos proporcionar a experiência do ateliê para os professores no dia do encontro de formação, pois temos a crença de que o protagonismo dá a dimensão da complexidade envolvida numa análise interpretativa de significados construídos na história de cada pessoa.

 

Foi interessante e revelador a maneira como alguns professores interagiram com a proposta. Como não foi lhes dito o que fazer, levaram um tempo para o processo criativo fluir e construírem a compreensão de que naquele momento o convite era para deixarem de ser reprodutores para serem produtores de cultura.

 

Diante do vivido nesta experiência de montagem e de documentação do no ateliê fica ainda mais claro para nós a escolha das escolas reggianas elegerem a linguagem visual como meio para interrogar e indagar o mundo, e para “construir pontes e relações entre experiências e linguagens diferentes, para manter estreitamente relacionados os processos cognitivos com os expressivos, e em contínuo diálogo com uma pedagogia que tenta trabalhar sobre as conexões e não sobre a separação dos saberes” (Vea Vecchi).

 

 

*A autora é pedagoga e especialista em EJA, consultora associada e Gerente de Projetos da ESSE Consultoria e membro da Equipe Diretiva da RedSOLARE Brasil.

bezerra.alba@gmail.com

voltar

Sobre a ESSE

 

Com o provérbio latim Ab esse ad posse – De ser, a saber – da existência das coisas, podem-se estar certos da sua possibilidade. Aqui está a ESSE e são muitos os seus caminhos.

Esse Consultoria Ltda 2011. Todos os direitos reservados.
Endereço: Av. Tancredo Neves, nº 620
Condomínio Mundo Plaza, sala 1005
Caminho das Árvores - Salvador - BA
Telefone: 71 3036-3009