Permitir (se) conhecer


Leticia Monteiro[1]

 

Estar psicóloga. Estar disponível para ser com o outro. Para conhecer o diferente. Para compreender quem é, como vive, o que sente, o que deseja. Permitir-se desconstruir paradigmas, compreender novas lógicas de funcionar, de viver, de trabalhar, de relacionar-se, de morrer.  Sentir o belo diferente, o tempo que transcorre em outro tempo, sentir que a nossa diversidade, a potencialidade pulsante do tornar-se, de ser fluido, de poder-ser,  é o que nos faz similares. Deixar morrer qualquer noção predefinida do que é ser humano, para permitir-se conhecer o outro integralmente.

 

Despir-se. Desempoderar-se de uma posição desigual, que gera distância entre e que gera distância para. Quando há distância entre, a infinita possibilidade de ser é esmagada pelo inesgótavel desejo de dominar. Despir-se, pois, da desigualdade da imposição, sobreposição, que gera dependência, inconsciência, que cessa o movimento. E ousar vestir-se com as peças e cores disponíveis. O poder unilateral, então, substitui-se por relações que empoderam, que promovem autonomia e liberdade através da ação, através da partilha, através da presença.

 

Constituir-se enquanto parte de uma comunidade com o objetivo claramente definido de possibilitar aprendizagens significativas para o trabalhoso desafio que é viver, ser e transformar a realidade e o mundo que nos cerca. Ter a singularidade de estar a serviço da descoberta do outro: antes, durante e após a sua passagem por esta comunidade, identificando as potencialidades, identificando aquilo que é preciso desenvolver para se alcançar o que se deseja e, acima de tudo, buscando possibilidades para isso.

 

Dentro desse mundo de possibilidades, desejos e ações que movem, o aprendizado constante, aparentemente contraditório, sobre como lidar com os limites, de si, do outro, do espaço, do tempo…  Reconhecer os limites significa reconhecer o que é possível, sabendo tratar-se de uma condição temporária: os limites existem, mas não são necessariamente permanentes, são situacionais, relacionais e nos elevam à condição de criador, daquele que transforma e transforma-se pelo que existe e pelo que se almeja.

 

Acompanhar e vivenciar o processo de tornar-se, o eterno movimento do vir a ser que existe enquanto vida, enquanto vivos. Experienciar com o outro a sua própria experiência, construindo, nesse instante, uma experiência nova. Encontrar-se com o humano e com a sua própria humanidade. E assim, reconhecer novos valores, ou valorizar mais aqueles já reconhecidos. Buscar a cada dia, a autenticidade do ser quem se é, com a também aparente contradição de que esta não é uma noção imutável: só é possível ser, sendo. Só é possível viver, vivendo. A cada instante, a cada desafio, a cada novo encontro. E descobrir que permitir-se conhecer o outro é permitir se conhecer.

 

 


[1] A autora é psicóloga e atua como consultora associada na ESSE Consultoria, no Projeto Moatize – Tete – Moçambique.

lelachaves@gmail.com

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