Reflexão sobre a Escola e seus Projetos

Paulo Henrique Albuquerque*

 

 

“Gente, espelho da vida, reflexo do esplendor. Se as estrelas são tantas, só mesmo o amor…”

Caetano Veloso

 

Tenho me questionado sobre o fato de ter como parâmetro para a educação das crianças o interesse dos adultos. Tenho me questionado: qual o objetivo da educação? Se eu construí alguma resposta para esta pergunta, foi a de que o objetivo da educação é o de formar sujeitos autônomos, capazes de se sustentar na vida. Esta resposta hoje me parece estar no caminho certo, embora tenha uma profunda sensação de que está incompleta. É a isso que venho me permitir esta reflexão, e a partir deste tema venho comunicar algo, em primeiro lugar a mim mesmo e em segundo a você.

 

Se o objetivo da educação é formar um sujeito autônomo, pergunto: o que significa autônomo quando pronuncio esta palavra? O sujeito autônomo ao qual me refiro é a pessoa capaz de viver num estado de auto-apoio. “Existem dois tipos de controle: um é o controle que vem de fora – eu sendo controlado pelos outros, por ordens, pelo ambiente, e assim por diante; outro é o controle interior, incorporado em todo o organismo – minha própria natureza.” (Perls, p.19, 1970). A este segundo denominamos auto-apoio. Estou certo de que o principal objetivo da educação é buscar apoiar o amadurecimento do seu educando. Gosto da definição de Perls sobre este assunto quando diz que: “(…) o processo de maturação é a transferência do apoio ambiental para o auto-apoio”. Não é isso que acontece com todo animal? Primeiro há um período natural de dependência durante o desenvolvimento. A fase de amamentação, aprender a caçar, etc. Depois o animal deixa de depender da mãe e dos parentes (apoio ambiental ou externo), se for o caso, e segue a sua vida com os seus próprios recursos. Se não conseguir amadurecer, ser autônomo ou auto-apoiar-se (conseguindo sua própria comida, se defendendo, etc.), estará exposto às leis da natureza e não conseguirá sobreviver.

 

Pelo fato de o humano configurar um organismo mais complexo, o seu período de dependência precisa ser mais longo comparando-o aos outros animais. Por isso temos um período grande do nascimento até a puberdade. Porém, parece que o único animal a se desenvolver biologicamente à medida que há contínua dependência do outro é o ser humano. A dependência a qual me refiro não se destina a necessidade do homem de viver socialmente, mas a uma imaturidade decorrente da interrupção do seu desenvolvimento.  O homem hipertrofiou tanto a arte de favorecer para si um meio ambiente menos perigoso à sua sobrevivência através do intelecto, que houve uma atrofia na sua capacidade de “andar com os próprios pés”. Em certo sentido o homem “civilizado” não está mais arremessado à lei do tudo ou nada como na selva. À vida ou morte. A sua imaturidade, no sentido estrito, provavelmente não lhe custará à vida de forma imediata como para o animal, porém, o homem tem se contentado com uma vida medíocre sendo medíocre. E deste jeito se justifica o câncer e a depressão.

 

O Grito (Pintura) de Edvard Munch.

Toda a capacidade de criação e recriação de si mesmo que a existência lhe exige tornou-se mediana, ao passo há uma retenção e contenção crônica da expressão do ser mais genuíno de cada pessoa. As pessoas de um modo geral se tornaram um pedregulho pesado e morto caindo do céu nessa estrada, e duas ou três vezes a cada ano bissexto aparentam-se como lindos meteoros. Apresentam ao mundo a lava que vem do seu âmago. Portanto, é preciso chamar a atenção para o fato de que a escola deveria facilitar a autonomia de seus alunos e, no entanto, vem tornando-os um poço de informações sem nenhuma digestão, assimilação. Alunos desfigurados, destituídos do seu rosto natural. Essa é a padronização. Por melhor intenção que a escola tenha, em verdade ela vem condicionando os alunos como se condiciona os cães de guarda, eis o que justifica a seguinte fala:

 

“Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornará assim uma máquina utilizável, mas não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto. A não ser assim, ele se assemelhará, com seus conhecimentos profissionais, mais um cão ensinado do que uma criatura harmoniosamente desenvolvida. Deve aprender a compreender as motivações dos homens, suas quimeras e suas angústias para determinar com exatidão seu lugar exato em relação a seus próximos e à comunidade” (Einstein, p.31, 1879 – 1955).

 

A neurose é essa restrição de “quem eu sou” em prol do ajustar-se ao que imaginamos a sociedade esperar de nós. Essa não criticidade sobre os valores impostos. Temos vivido na base do caráter. E ao contrário do que pronunciamos no mundo cotidiano, caráter para a psicologia é doença. Ter caráter é criar uma forma ilusoriamente tão concreta de personalidade, que quando o indivíduo percebe que existe “outrem” como possibilidade de si, entra em colapso. Luta exaustivamente para manter o caráter que ele imagina ser o seu máximo. – O humano perdeu a dimensão da sua própria grandeza, por isso precisa recorrer ao autoritarismo. – Se a pessoa imagina-se calma, e em algum momento é raivosa, então se angustia, sente culpa e pune a si mesma. Ela imagina que raiva é uma expressão feia, que não é digna da “boa pessoa”, e como não pode bancar as suas expressões para além do julgamento, afinal continua precisando e buscando sempre a aprovação do outro (apoio externo). Em outras palavras, a pessoa perde a capacidade de lidar com o mundo de forma fluida e criativa, pois o seu caráter tornou-se um sistema rígido. Ela está limitada a um número finito de respostas. É alguém monótono. Vai lidar com as situações de acordo com o que o seu caráter prescreve.

 

“Desta forma, parece ser paradoxal o fato de eu dizer que a pessoa mais rica, mais produtiva e criativa é a pessoa que não tenha caráter, e especialmente um bom caráter, porque desta forma ela é previsível, pode ser classificada, e assim por diante” (Perls, 1970, p.21 – 22).

Precisa-se chamar atenção para o medo e a ousadia dos educadores. Os educadores por terem sido educados nesta escola parecida com a que oferecem hoje, tremem à frente do novo. Temem a possibilidade da mudança e consequentemente do caos de que ela necessita. O caos que ressurge da matriz mais profunda dos seus próprios medos. Portanto, não há outra possibilidade para a mudança senão a mudança dos educadores. E a mudança primeiramente, não consiste num entendimento teórico, mas numa compreensão da pessoa da sua própria história, com seus medos e terrores, além da ampliação conseguinte no campo das ações desta pessoa no mundo, da diversificação das suas próprias formas de ser. Assim, ultrapassando os seus próprios medos traçados na infância, poderão ousar na educação. Como se diz, qualquer mudança começa de dentro. Então a ousadia da mudança será natural. Ele terá descoberto que cada um – assim como ele mesmo – tem o direito de descobrir seu próprio limite, e deixará de tentar controlar o que quer que seja. Aí sim precisará da técnica, pois não a utilizará para manipular o educando. Abrirá mão da ilusão de que o poder de algum destino está em nossas mãos. Perderá o controle, que no fim acaba sempre apenas controlando a nós mesmos. Em resumo, o educador precisa descobrir que paradoxalmente as suas tentativas de “controlar” ou de “ajudar” – o que dá no mesmo – sempre dão errado. E que os seus sucessos são reais quando não há nenhum controle. Isso inclui reconhecer a possibilidade de que alguns educandos podem se tornar aquilo que não desejamos, ou consideramos a pior das possibilidades, e isso é muito bom para desbancar a nossa síndrome de herói. Porque o salvador possui um poder que somente se vê nos livros.

 

“Ora, não existe outra educação inteligente senão aquela em que se toma a si próprio como um exemplo, ainda que não se possa impedir que esse modelo seja um monstro!” (Einstein, p.31, 1879 – 1955).

Atualmente quando se fala em autonomia, a minha impressão é a de que a primeira reação tem sido sempre equacionar a palavra autonomia a autonomia financeira. E parece-me que as escolas tem objetivado formar em primeira instância profissionais e não pessoas. O que se vê são pessoas doentes, vivendo num vazio quase absoluto. Vivemos a sociedade que forma o século da depressão e do câncer, duas doenças fruto da falta de realização e de sentido na vida. A palavra autonomia em primeiro lugar me remete a uma capacidade da pessoa de autogerir-se, bio-psico-socio-espiritualmente. Uma pessoa capaz de trilhar o caminho de sua própria vida rumo a autorrealização, e também de compartilhá-la. Autonomia me remete a rebeldia. Uma pessoa inteligente muito dificilmente seguirá o manual que prescreve as leis do “bom samaritano”. Ela verá que muitas dessas leis são valores distorcidos e em parte mentiras. E por último, autonomia me remete a criatividade. Uma pessoa que é capaz de se adaptar ao contexto no qual se encontra, e para isso as suas crenças e valores precisam ser flexíveis. Uma pessoa saudável. “Saúde é um equilíbrio apropriado da coordenação de tudo aquilo que somos” (Perls, p.20, 1970). Eis a definição de saúde.

 

Buscando respostas para as minhas perguntas e garimpando saber se as respostas quais venho me dando na práxis são somente minhas, descubro obviamente que não. Faço das palavras de Sándor Firenczi minhas, pois já estavam em mim antes que as tivesse lido.

“O estudo das obras de Freud e as análises pessoalmente efetuadas podem convencer todos nós de que uma educação defeituosa não é só a origem de defeitos de caráter, mas também de doenças, e de que a pedagogia atual constitui um verdadeiro caldo de cultura das mais diversas neuroses. Mas a análise dos nossos pacientes leva-nos, queiramos ou não, a rever a nossa própria personalidade e suas origens; daí extraímos a convicção de que mesmo a educação guiada pelas mais nobres intenções e efetuada nas melhores condições – uma vez que esteja baseada nos princípios errôneos geralmente em vigor – influencia de forma nociva e de múltiplas maneiras o desenvolvimento natural; (…)  a personalidade de alguns entre nós tornou-se mais ou menos inapta para desfrutar sem inibição dos prazeres naturais da vida” (Firenczi, p.39).

 

A neurose não é referente a um distúrbio fundado por um componente predominantemente fisiológico ou em qualquer outra ordem, mas fundamentalmente educativo. Quando me refiro a este distúrbio como fundamentalmente educativo, não tem que ver com a dicotomia corpo e mente ou coisa parecida. Como se a educação delimitasse apenas o terreno psíquico ou vice-versa. Em primeiro lugar, não há esta divisão no mundo-em-si, nossa forma de pensar é que necessita dividir as coisas e nós mesmos. Como afirma Perls em congruência à citação de Firenczi: “O que nos impede de amadurecermos? A palavra ‘neurose’ é muito ruim. Eu emprego também, mas deveria ser substituída pordesordem do crescimento. Em outras palavras, a questão da neurose se desloca cada vez mais do campo médico para o campo educacional. Eu encaro cada vez mais a ‘neurose’ como um distúrbio do desenvolvimento” (Ibidem, p.49).

 

A educação referida, logicamente vai além dos muros da escola e circunscreve o processo de crescimento e aprendizado do ser, ou seja, o seu processo formativo, educativo em todo o seu habitat natural: a vida… Isso inclui sua relação com família, escola, cultura, transeuntes, bichos de estimação e quaisquer relações que o indivíduo venha a estabelecer com o mundo e consigo. Chego agora à conclusão de que o fim é o de promover a escola como ambiente propício a relações com a vida de uma forma rica e metodologicamente positiva, com a pesquisa da existência no nível mais natural e saudável possível, dando-se a interrupção da escola como um ambiente que mais se assemelharia a um hospital, onde se pode pegar uma infecção a qualquer momento.

 

Um dos erros mais graves que vejo cotidianamente nas escolas, aplicados pela pedagogia é o recalcamento das emoções e representações. Nas palavras do autor Firenczi (Ibidem) “poderíamos até dizer que a pedagogia cultiva a negação das emoções e das ideias (…). É difícil dizer sobre o princípio que a rege. É com a mentira que ela mais se aparenta. Mas ao passo que os mentirosos e os hipócritas dissimulam as coisas para os outros ou então apresentam-lhes emoções e ideias inexistentes, a pedagogia atual obriga a criança a mentir para si mesma, a negar o que sabe e o que pensa. (…) a humanidade é atualmente educada para uma cegueira introspectiva”.

 

Nesta mesma direção, Goodman fala da escola compulsória. De como a escola se tornou sem utilidade prática para a vida humana.

“O problema que a princípio se nota, é que o sistema escolar obrigatório se tornou, exatamente como toda a nossa economia, política e padrão de vida, um empreendimento do tipo beco sem saída. O sistema compulsório não se destina mais a assegurar o máximo de desenvolvimento de futura utilidade prática para as crianças num mundo em transformação, exigindo, ao invés, tecnocracia inadequada para objetivos exteriores a prazo lamentavelmente curto. Mesmo quando bem intencionada, a escola depara com as mortais garras burocráticas de uma concepção uniforme, a começar pelas universidades, o que de nenhuma maneira se amolda a multiplicidade das disposições e condições. Hoje em dia, 100% das crianças são obrigadas a permanecer, doze anos pelo menos, numa espécie de jaula… Como consequência é preciso que, se quisermos começar a fazer experiências com educação realmente universal atingindo o que promete, nos livremos da escola compulsória.”

 

Analisando a prática educativa, me questiono qual o objetivo de um planejamento de aula que seja pensado pelos adultos fora da sala e sem as crianças? Que sentido as crianças podem ver na escola? Lembro-me de quando iniciei a monografia na faculdade e a minha orientadora deixou bem claro, que o primeiro critério de qualquer pesquisa é o interesse do pesquisador pelo tema. Seria muito difícil concluir ou desprender grande energia por uma coisa a qual eu não tinha muito interesse pessoal. Olhando deste ponto de vista, vejo as crianças na escola também como pesquisadoras, pesquisadoras da vida. Elas querem descobrir o mundo, e, além disso, a forma como podem acessá-lo. E pergunto-me: como pode haver um projeto que diga o que este aluno irá pesquisar desconsiderando que ele já iniciou a sua pesquisa? – Na amamentação, no útero e assim por diante –. Pergunto-me: qual a relevância de conceitos da matemática, do alfabeto, das ciências sociais, naturais, da biologia para uma criança com menos de sete anos? As crianças precisam explorar o mundo sem as limitações dos conceitos que poderão conhecer mais tarde, pois assim os compreenderão melhor. Quando conhecemos a existência, os conceitos são de mais fácil acesso e compreensão. Porque os conceitos são simplesmente uma pequena parte do mundo que agora o indivíduo conhece melhor. Conhece o seu sabor, sabor vem da palavra sapere, que nos remete a experiência. Saber por experiência é bem diferente de conhecer uma informação perdida no espaço e no tempo.

 

Pergunto-me: porque se precisa criar um projeto de intervenção anterior a presença das crianças? Pelo que não deixá-los explorar o mundo e tentar compreender esta exploração? Pelo que não incentivá-los a criar as suas próprias perguntas e do mesmo modo a respondê-las? E pergunto-te: o que você faria se sentasse no restaurante e antes mesmo que você pudesse olhar o cardápio, o garçom lhe trouxesse um prato e uma bebida qualquer? Parece um absurdo, mas não é a mesma coisa do que estamos fazendo na educação?

 

 

*O autor é psicólogo, atua na Escola Colmeia; em psicologia clínica; e como consultor associado na ESSE Consultoria, em projetos nacionais.

paulohsma@hotmail.com

 

 

 

voltar

Sobre a ESSE

 

Com o provérbio latim Ab esse ad posse – De ser, a saber – da existência das coisas, podem-se estar certos da sua possibilidade. Aqui está a ESSE e são muitos os seus caminhos.

Esse Consultoria Ltda 2011. Todos os direitos reservados.
Endereço: Av. Tancredo Neves, nº 620
Condomínio Mundo Plaza, sala 1005
Caminho das Árvores - Salvador - BA
Telefone: 71 3036-3009